14 de outubro de 2016

Tão breve esta Eternidade!






"Sinto-me hoje habitar no espaço cinzento da angústia, para lá da incerteza.
Com efeito, o q existe além da esperança é uma espécie de vazio q pretende ser composto de mais esperança, num adiar da vida que nos foge debaixo do chão. E não sabemos nada do futuro. Garantia zero.
Ah como sinto a falta dos palcos; dos meus músicos; das viagens em busca de graal e plutão; e do pão quente pelas madrugadas mil q percorri.
Das esperas e estradas e incertezas. Da busca feliz dos dias de aplausos e apreço. Dos Auditórios cheios, fervilhando de emoção, onde deixei o suor, a alma e o talento. Bataclans por que chorei, no arrepio da memória em q tão poucos por vezes souberam de meus passos. 
Percorro todo esse território de trajectos e afectos; e sim, eu estive lá. 
Podem nunca o ter relatado; mas estive e lembro. A fama sempre foi uma questão de agenda, atribuída por razoes de ocasião e outros variados temperos de interesse e conveniência. Mas eu lembro demais, até. Corri este pais a palmo. E muito, muito, muito mundo, por aí.
Tudo o q tenho agora, precisamente, que cancelar e adiar de mim.
A verdadeira tristeza não tem paradigma certo - invade-nos e pronto.
Parar agora - dizem - vai ser para poder recomeçar de novo, mais forte e recomposto; um dia; talvez adiante e primavero. Quero acreditar.
Não me canso de pensar em tudo isto. Esperança e vida, imploramos por elas sempre mais. Na ilusão fáctua de alguma eventual serenidade.
Uso meu velho professor Vergilio Ferreira para repeti-lo: 
"tão breve esta eternidade." 
Quantas vidas cheias não se fariam com tudo o q esta não usou?
E quantas mais me estarão reservadas, ou não, no vão de escada furtivo q é este brevíssimo acto de viver?
Meço a vida com canções, poemas e momentos de fantasia. Só pelo sonho vale a pena. O resto é muito pouco, imprevisível e fugaz. 
E tem números; q sempre me foi uma realidade concreta de mº difícil entendimento. Sou da poesia, portanto, não existo. Apenas sobrevivo. Sem contracto certo nem retrato duradouro.
Tanta vaidade a sustentar o mundo, para nos convencermos de sermos importantes. Qd afinal, somos apenas um vago pretexto de nós mesmos, com a paisagem de fundo da nossa circunstância.
Resta o desejo, sempre, de ser gente. E merecer essa tal "brevissima eternidade", pelo menos nos afectos q mantivermos vivos.
Até ao regresso de um dia, num pleno sol; adiado, por agora, mas latente. 
O tal q existe muito para lá de nós; e esse sim, - é q é perfeito."

Pedro Barroso





Sem comentários:

Enviar um comentário