11 de abril de 2014

Cantos da Paixão e da Revolta






A música de Pedro Barroso é transversal e atravessa idades e gerações, sempre plena de significados e sensibilidade.

É um autor histórico de uma geração de coragem que lutou, ainda na clandestinidade, a vida académica e através da sua arte, derramada em tantos palcos clandestinos e sessões de baladas, ainda antes do 25 de Abril. Foi esse grupo de gente, artistas muitas vezes esquecidos, jovens universitários dos anos sessenta e setenta - baladeiros lhes chamavam - que muito contribuiu, pela canção, para nos devolver os valores imensos da Democracia e a Liberdade. Com um longo e criativo percurso de mais de quatro décadas, desde a sua estreia no célebre programa zip zip, em 1969, Pedro Barroso é, hoje por hoje, um dos últimos sobreviventes dessa geração da resistência, facto que leva muitos a considerá-lo, pelo estilo criativo, qualidade poética e dizer inconfundível como o último trovador.

Faz canções como já não se usa fazer. São actos de sentir e de pensar, momentos de intensidade e subtileza. Carregadas de palavras cúmplices e memorias de sempre. E, curiosamente, neste disco histórico prenuncia, simultaneamente, o seu retiro; mas também, de novo, a sua revolta. Vê-se que o presente momento do País e do Mundo lhe recorda a mesma amargura dos velhos tempos e das velhas razões, e a disponibilidade eterna para as causas da Justiça e da Liberdade.

A sua sensibilidade, disfarçada por um porte imenso, um desprendimento e uma atitude de retiro e uma quase apaixonada defesa dos valores fundamentais da intimidade, da poesia e da simplicidade de existência, levam-no a viver, por norma, afastado dos centros de exibição e glória imediata, onde é notório que não se revê, nem participa. O seu espaço é a sua imensa capacidade criativa; a sua cumplicidade com a paixão intensa e a revolta latente sempre. O que ressalta de uma análise do Mundo ora envolvente de ternura e intimidade, ora exigente de direitos e justiça.

Ao escuta-lo sentimos nele o lutador que não desiste e estes cantos da paixão e da revolta são exactamente uma espécie de contabilidade dos itinerários percorridos e de todos os que ainda haja por percorrer. "





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